Mosteiros Cervejeiros: Conheça os Mosteiros Trapistas

Mosteiros e bebidas alcoólicas andam de mãos dadas há muito tempo. Desde o velho testamento há histórias de mosteiros que tinham vinhedos e produziam vinho. O próprio espumante teve uma revolução na produção por causa do monge beneditino francês, Dom Perignon.

Monges levavam uma vida solitária de trabalho e oração, mas acreditavam em caridade e hospitalidade. Os mosteiros eram conhecidos como locais de refugio para viajantes que procuravam por um lugar seguro com comida e bebida, e isso, aliado a autossuficiência dos mosteiros, que além do vinho e cerveja, também produziam produtos do dia a dia como pão, queijo, chocolate, geleia, biscoito, shampoo, sabão entre outros itens de limpeza, religiosos, decorativos e alimentícios.

Monge Trapista bebendo cerveja

Monge Trapista bebendo cerveja. Fonte: catholicleader.com.au

Mas hoje, o foco é falar sobre os mosteiros famosos pela cerveja que produzem, especificamente da ordem trapista.

Origem da Ordem Trapista

Os mosteiros trapistas tiveram inicio com a abadia de Notre-Dame de La Trappe, fundada em 1664 na Normandia, noroeste da França. Ah, e não confunda este mosteiro com o holandês, que produz a cerveja trapista La Trappe, este se chama Koningshoeven.

Abadia de Notre-Dame de La Trappe

Abadia de Notre-Dame de La Trappe. Fonte: latrappe.fr

No mosteiro francês de La Trappe foi fundada a rígida Ordem Cisterciense da Estrita Observância, também conhecida como trapista. Além disso, estes mosteiros seguem a regra de São Bento escrita no século VI, por isso, fazem parte da família beneditina, e levam muito a sério a ideologia da abnegação como a sua identidade primária, autossuficiência, reflexão espiritual e observância junto com um equilíbrio de trabalho, leitura e estudo.

Porém, mesmo a ordem trapista ter origem na França é na Bélgica que eles ganharam fama. Isso porque no século XVIII os mosteiros foram migrando aos poucos para a Bélgica e países baixos impulsionados pela revolução francesa seguido das guerras napoleônicas.

Mosteiro Trapista Koningshoeven

Mosteiro Trapista Koningshoeven

Mesmo por produzirem cerveja desde a idade média, é nesta mudança do sul para o norte europeu que começaram a cultivar cereais com mais ênfase e, consequentemente, em produzir e beber mais cerveja.

Outro fator importante é que nesta época os monges faziam parte de uma pequena parcela da população que sabia ler e escrever, sendo este um dos motivos que permitiram que as cervejas feitas por eles se tornassem excelentes. Estudando, anotando, repetindo processos e investindo em tecnologia, tornaram as cervejas produzidas por eles cobiçadas por todos os cervejeiros.

Origem do termo Autêntico Produto Trapista

Estas cervejas começaram a se destacar muito rapidamente, e foi tanto o sucesso que outras abadias e cervejarias, mesmo sem relação nenhuma com a Ordem Cisterciense, passaram a estampar em seus rótulos a denominação “trapista”.

Cervejas Trapistas

Cervejas Trapistas. Fonte: wikipedia.org

Os monges do mosteiro belga de Orval foram os responsáveis por iniciar os procedimentos legais para defender o nome Trapista à origem do produto, e, para terminar com esta confusão, em 06 de setembro de 1985, o Tribunal do Comércio de Bruxelas emitiu uma lei que dizia: “é agora, do conhecimento comum, que os clientes atribuem normas especiais de qualidade aos produtos constituídos por comunidades monásticas, e isso é especialmente verdadeiro para os mosteiros trapistas”.

Ou seja, todos os produtos produzidos pelos mosteiros trapistas em todo o mundo podem ser chamados de trapistas, sendo o nome Trapista uma denominação de origem. Ninguém, além de mosteiros trapistas, pode se apropriar para si o direito de usar esse nome para qualquer produto que seja.

Selo Authentic Trappist Product

Selo Authentic Trappist Product

 

Fazendo um paralelo, o termo trapista, quando usado para cerveja, tem o mesmo efeito que o appelation controlée do vinho, e apenas cervejas Trapistas podem usar o selo “Authentic Trappist Product” em seus rótulos.

Cervejas de Abadia X Cervejas Trapistas

Algumas vezes gera confusão quando falamos de cervejas de Abadia e cervejas Trapistas, isso porque cervejas trapistas também são de abadia, e muitas das cervejas de abadia também são produzidas em mosteiros.

Monge Cervejeiro

Monge Cervejeiro. Fonte: http://pbrnews.com

Mas, para ser considerada uma cerveja Trapista, ela deve atender algumas regras especiais:

  • a produção deve acontecer dentro de um mosteiro ou nas imediações dele
  • a comunidade monástica determina as políticas e fornece os meios de produção
  • o lucro é destinado para suprir as necessidades da comunidade ou para os serviços sociais

As cervejas de abadia podem ser produzidas no mundo todo, de brewpubs até cervejarias globais como a AB InBev fazem cervejas com esta denominação, basta ter o nome licenciado por uma abadia.

Vale lembrar que cervejas trapistas e de abadia se referem a um conjunto de estilos e não um único em específico, sendo alguns dos estilos tradicionais: Dubbel, Tripel, Strong Dark Ale, Bond Ale e Strong Pale Ale.

Características das Cervejas de Abadia e Trapistas

Algumas características são comuns nestas cervejas, onde:

  • todas as cervejas são Ales, com temperaturas de fermentação que variam entre 18 e 26°C
  • alta graduação alcoólica, entre 6 a 9.5% ABV (ABV = álcool por volume)
  • aroma de lúpulo varia de baixo a nenhum
  • uso de condimentos como casca de laranja, coentro e pimenta são comuns, assim como o uso de diferentes tipos de açúcar

Cervejarias Trapistas

Existem muitos mosteiros trapistas espalhados pelo mundo, mas, apenas 12 mosteiros produzem cervejas:

  1. Abadia de Orval (Bélgica)
  2. Abadia de Achel (Bélgica)
  3. Abadia de Westmalle (Bélgica)
  4. Abadia de Chimay – Scourmont-Lez-Chimay (Bélgica)
  5. Abadia de Rochefort (Bélgica)
  6. Abadia de Westvleteren (Bélgica)
  7. Abadia de La Trappe – Koningshoeven Abbey in Tilburg (Holanda)
  8. Maria Toevlucht Abbey in Zundert (Holanda)
  9. Abadia de Stift Engelszell (Áustria)
  10. Abadia de Tre Fontane (Italia)
  11. Abadia de St. Joseph’s (USA)
  12. Abadia de Mont-des-Cats (França)*

* A abadia francesa de Mont-des-Cats é o único mosteiro trapista que não pode usar o selo ATP (Autêntico Produto Trapista), pois sua cerveja é produzida em parceria e fabricada no mosteiro da Chimay, e uma das regras para usar o selo é que o produto deve ser produzido dentro do mosteiro que comercializa o produto. Assim, esta cerveja só pode estampar no rótulo que se trata de um produto trapista.

Fontes

  • Order of Cistercians of the Strict Observance, disponível em www.ocso.org
  • International Trappist Association, disponível em www.trappist.be
  • I Think About Beer, disponível em www.ithinkaboutbeer.com
  • Livro: A mesa do mestre cervejeiro, Garrett Ovilver, 2012, Senac

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