Orval: Abadia de Orval | Bélgica

Dos mosteiros trapistas, a Orval é que possui a história mais pitoresca. Orval significa Vale de Ouro e o nome foi dado pela viúva condessa Matilda de Toscana após, acidentalmente, deixar seu anel de casamento cair numa fonte. Ela se ajoelhou e orou ao Senhor pedindo seu anel de ouro de volta, em seguida, uma truta subiu a superfície com o precioso anel em sua boca, então ela exclamou: “este lugar é um verdadeiro vale de ouro” e, em gratidão, decidiu construir um mosteiro ali.

Mas, apesar desta romântica lenda, da mesma forma como outros mosteiros trapistas, a Orval também teve de enfrentar alguns contrapontos em sua história.

Abadia de Orval. Fonte: orval.be

Abadia de Orval. Fonte: orval.be

O monastério foi fundado em 1132 e em 1252 a abadia foi destruída por um incêndio. Sua reconstrução levou cerca de 100 anos. Em agosto de 1637 o mosteiro foi saqueado por tropas francesas durante a Guerra dos 30 Anos e novamente demolido. A reconstrução acabou no final do século.

Até o início da Revolução Francesa o monastério passou por algumas reformas e foi construída uma nova igreja, porém, em 1793 os franceses novamente saquearam e incendiaram a abadia, e por mais de um século a Orval ficou à mercê do tempo e os monges retiraram-se para outros refúgios até se dissolverem oficialmente em 1795.

Em 1926 um grupo de monges cistercienses franceses foram enviados a Orval com o objetivo de reerguer o mosteiro, e muito rapidamente, em 1948, uma nova abadia terminou de ser construída nas mesmas bases do monastério do século 18.

A Cervejaria

Neste processo de reconstrução do monastério foi inserida uma cervejaria com o intuito de financiar a construção do novo edifício, assim como a manutenção posterior e também fornecer fundos para necessidades sociais.

Diferente dos outros mosteiros, a Orval produz apenas uma cerveja. A receita foi desenvolvida em conjunto do mestre cervejeiro alemão Hans Pappenheimer e os belgas Honoré Van Zande e John Vanhuele, que trabalharam na cervejaria no mesmo período. Muito provável que o método de produção e o uso de dry-hopping, ambos ingleses, tenham sido ideia de John Vanhuele, que morou por algum tempo na Inglaterra.

A Cerveja Orval

A Orval é fabricada com variedades de maltes europeus, sendo alguns maltados conforme as especificações da cervejaria. Também é adicionado açúcar candy que deixa a cerveja com corpo leve e seca. As fermentações são feitas primeiramente com levedura Ale durante vários dias, e, em seguida, é adicionado uma mescla de dez variedades de leveduras, sendo uma delas a Brettanomyces, que dá o aroma característico de “couro de cela” a cerveja.

Cerveja Orval

Cerveja Orval

Após receber estas leveduras é feito o primming e a cerveja vai para a sala de maturação onde descansa por alguns dias até ser comercializada.

A cerveja da Orval só é comercializada em garrafas de 330ml que lembram um pino de boliche. O rótulo traz imagens relacionadas a lenda que originou o mosteiro: uma truta com o anel de ouro na boca e o selo de produto autêntico trapista na lateral.

Como a cerveja passa por uma segunda fermentação com a levedura Brettanomyces, os aromas mudam com o tempo, além disso, essa levedura consome os açúcares não fermentados pelas outras leveduras, deixando a cerveja mais seca e alcoólica.

Degustação da Orval

A Orval produz uma única cerveja, por isso foi feita uma degustação vertical, que consiste em escolher a mesma cerveja da mesma cervejaria, porém, de anos diferentes. Essa degustação foi para comparar o processo de envelhecimento de 3 anos da cerveja. Nesse caso uma Orval produzida em 2014, 2015 e 2016, todas degustadas em janeiro de 2018.

A garrafa contém 330ml e mantém a tradicional forma de pino de boliche, na rotulagem acontece o mesmo, a truta, com a aliança na boca, fica no centro e ao fundo do nome da cerveja. As amostras estavam na mesma temperatura e foram abertas a avaliadas por ordem cronológica. A seguir o resumo da degustação de cada safra, seguido das conclusões.

Degustação da Cerveja Orval

Degustação da Cerveja Orval

As 3 garrafas apresentaram a mesma coloração acobreada, com boa formação e estabilidade da espuma.

A garrafa de 2014 apresentou leve aroma acético, lembrando azeitona. Álcool também estava perceptível trazendo a memória aromas de xerez. Aromas doces e frutados estavam em evidência em forma de pera, avelã, mel e rapadura, com pitadas de aromas selvagens e terrosos. No paladar há amargor do lúpulo equilibrado com o dulçor do malte. Apresenta sensação de aquecimento e final seco.

A amostra de 2015 apresentou aromas selvagens intensos que remetem a celeiro, suor, mato e lã molhada, característica da levedura Brettanomyces, presente na Orval. Além destes aromas excêntricos, aroma doce, mel e floral também estavam claros. O dulçor fica aparente na boca, principalmente no retrogosto, mas em harmonia com o amargo do lúpulo.

Na Orval de 2016 os aromas da Brettanomyces estão menos presentes e o destaque vem de aromas florais e cítricos do lúpulo, seguidos por aromas doces como mel, laranja e tangerina. O dulçor da cerveja acompanha todo o gole com final seco e amargor pouco mais evidente.

Degustação da Cerveja Orval

Degustação da Cerveja Orval

Conclusões: Essa prova mostra que apesar do tempo de envelhecimento entre as amostras não ser muito longo, 12 e 24 meses, o perfil sensorial da cerveja mudou muito. O mais notável é como os aromas de lúpulo na amostra mais jovem estavam destacados, frente os aromas selvagens na segunda amostra e de álcool na de 2014. O período de envelhecimento pouco mudou a sensação da boca entre elas, todas apresentaram corpo médio/baixo e final seco, porém a mais velha teve final seco mais acentuado. Também houve equilíbrio entre o dulçor e amargor nas amostras mais velhas, e na mais nova o doce teve destaque.

Como Chegar a Orval

Endereço: Orval, n°1, B-6823 Villers-devant-Orval
Fone: 32 61 31 10 60
URL: www.orval.be

Fontes

  • International Trappist Association, disponível em www.trappist.be
  • Orval, disponível em www.orval.be
  • Wikipédia, disponível em www.wikipedia.org
  • Livro: A mesa do mestre cervejeiro

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Chapecoense, Publicitário, Sommelier de Cerveja e aprendendo a fazer cerveja. Escritor do Rango e Trago, viajante e apaixonado por novas culturas. Me siga no Twitter, no Facebook e no Google+.

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